quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Se eu não tivesse um filho


Se eu não tivesse um filho, eu não teria que passar por uma série de provações e desprazeres.

Eu não teria que acordar múltiplas vezes, todas as noites, quando ele tem algum gás que o incomoda e tira-lhe o sono. Ou quando a barriga dele dói de fome e a única coisa que o acalenta é o leite da mãe.

Eu poderia chegar em casa e descansar. Me desligar de qualquer coisa pendente a ser feita, mesmo porque não haveria tanto assim para ser feito. Não haveria brinquedos e panos de boca vomitados jogados por todos os lados. Não haveria carrinho no meio da sala, nem haveria toalha molhada em cima do trocador, que deveria ser pendurada na cadeira para não mofar. Não haveria água a ser fervida e garrafa térmica a ser reabastecida. Não haveria lixeira de fraldas a ser limpa, nem haveria mil coisas da esposa a serem recolhidas, que a coitada não teve tempo durante o dia.

Eu poderia ler um livro, fazer um curso, praticar artes marciais, tocar piano. Não que eu não faça tudo isso, mas faria sem culpa, com tempo para escolher com o que meu coração vai se apaixonar dessa vez.

Eu não teria que trocar a roupa de ninguém, exceto a minha própria, e muito menos teria que trocar de novo porque vomitaram ou cagaram nela assim que foi colocada. Eu não precisaria dar banho em ninguém, exceto em mim mesmo, e muito menos precisaria trocar a água da banheirinha porque cagaram nela assim que o banho foi começado.

Eu não precisaria rezar mil Ave Marias pedindo saúde para ele porque as cólicas o torturam, e outras mil para me dar força para aguentar a gritaria. Eu não precisaria ter que me preocupar com contaminação cruzada de leite de vaca ameaçando desencadear uma suposta alergia. Eu não precisaria aguentar a ligação da minha esposa desesperada durante o dia, com os berros que não me deixam escutar o que ela tem a dizer. Eu nem precisaria plotar peso de criança em curva e ter que me convencer de que zona amarela não é lá tão ruim assim.

Eu poderia simplesmente ter escolhido um caminho mais fácil. Eu poderia não estar morrendo de cansaço.

Mas, Graças a Deus, tivemos nosso filho.

E o eu que vai morrendo nem vale tanto assim. Ele olha tudo em termos compensatórios. Meu filho não me deixa dormir, mas pelo menos ele me dá um breve sorriso de vez em quando. Ele não pára de gritar, mas se eu o abraço ele me acaricia o rosto. Esse eu é um mercenário idiota se acha que o que faz um sofrimento valer é uma compensação momentânea de mesma magnitude. "Pelo menos ele sorri para mim". Que imbecil.

Porque viver sem provações e sem desprazeres não existe, e porque não é a vida que me deve algo, e sim o contrário. Porque, pior ainda, essa contabilidade nunca fecha, e o que fecha é o coração de quem espera contrapartida de tudo que faz. Porque, ora, que diabos se merece nessa vida? Em que momento da existência se assina um contrato, com contratante e contratada, em que as partes se comprometem com iguais deveres e direitos?

Mas sim: porque para o eu ter algum sentido é necessário resignar-se servilmente e amorosamente.

O filho amadurece a alma do pai, digamos, no grito. O berro infantil espanta a vontade pueril do pai de querer correr para os lados, e o atira para a única direção que o amor torna possível, que é para cima. É na birra do filho que a imaturidade do pai dá espaço à virtude.

Ou será que é melhor ser impulsivo que paciente? Ou é melhor ser preguiçoso que responsável? Ou é melhor ser disperso que focado? Ou é melhor ser egoísta que generoso? Ou é melhor a euforia que a equanimidade? Ou é melhor ser inútil que útil?

Mas não: é melhor ser um homem que uma criança.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Sínojo

Atualização 29 de Dezembro de 2019: essa postagem foi um erro. Só não vou remover para me lembrar da capacidade imensa que eu tenho de fazer besteira. Vida longa ao Papa Francisco.
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Um amigo lançou a seguinte pergunta: "E o Sínodo da Amazônia? Palavra de Deus ou complô do Foro de São Paulo?"

Ótima pergunta. Vamos averiguar.

Este é o working document oficial do Sínodo. O sumário já dá uma bela pista sobre do que vai se tratar. "Amazônia, fonte de vida", "Vida ameaçada", "Defender a vida, enfrentar a exploração", "Destruição extrativista", etc. A Parte II intitula-se "ECOLOGIA INTEGRAL: O CLAMOR DA TERRA E DOS POBRES". Onde já vimos isso antes?


Não pode ser. Leonardo Boff é um teólogo liberal apóstata e herege. O homem é o demônio em pessoa. Ele é um grande inimigo da igreja. Não importa que a encíclica do Papa Francisco esteja alinhada com a narrativa eco-globalista, ele certamente não se inspiraria em um inimigo da igreja para pautar um Sínodo inteiro.

A Teologia da Libertação da América Latina, da qual você é um dos seus representantes mais proeminentes, recebeu novas honras do Papa Francisco. Uma reabilitação para você depois de décadas de luta com o papa João Paulo II e seu supremo guardião da fé Joseph Ratzinger, o posterior papa Bento XVI? 
Francis é um de nós. Ele fez da teologia da libertação propriedade comum da igreja. E ele estendeu. Aqueles que falam dos pobres também devem falar da terra hoje, porque eles também são saqueados e profanados. "Ouvir o choro dos pobres" significa ouvir o choro dos animais, da floresta, de toda a criação torturada. A terra inteira está gritando. Então, o papa diz, citando o título de um dos meus livros, devemos ouvir o clamor dos pobres e da terra ao mesmo tempo. E ambos têm que ser libertados. Eu mesmo tenho me preocupado muito com essa extensão da teologia da libertação recentemente. E essa também é a coisa fundamentalmente nova em "Laudato si" ... 
... a eco-encíclica do papa de 2015. Quanto Leonardo Boff tem em Jorge Mario Bergoglio? 
A encíclica pertence ao papa. Mas ele consultou muitos especialistas. 
Ele leu seus livros? 
Ainda mais. Ele pediu material para "Laudato si". Dei a ele meu conselho e enviei um pouco do que escrevi. Ele usou isso também. Algumas pessoas me disseram que estavam lendo "esse é Boff!" A propósito, o Papa Francisco me disse: "Boff, por favor, não envie os papéis diretamente para mim".
Estão claríssimas as motivações do Sínodo da Amazônia. O Papa Emérito Bento XVI já disse que a Teologia da Libertação é anti-cristã, e alguns membros sêniores da Igreja já se posicionaram fortemente contra este Sínodo. 

Resta um apelo: por favor, Papa Francisco, reconsidere.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Como destruir uma cidade

O governo da cidade de São Francisco (EUA) acaba de definir a NRA como uma organização terrorista.

Imagino que um leitor deste blog teria dificuldades de entender essa notícia. Para ajudar, montei a seguinte tabelinha sobre o que vale e o que não vale de acordo com os californianos

De boas Não de boas
Chamar um grupo que defende os direitos constitucionais das pessoas, a NRA, de terrorista Chamar um criminoso de criminoso
Espalhar HIV de maneira dolosa Entregar canudinho de plástico no restaurante
Feira de fetiche em ruas públicas, com direito a sexo ao ar livre Ter página católica em rede social californiana
Cobrar mais imposto do que 90% dos estados da federação Usar dinheiro público para viajar para estados pró-vida

Manterei atualizado...

Fontes:
  • 1a: https://www.bbc.com/news/world-us-canada-49574445
  • 1b: https://www.sfchronicle.com/bayarea/philmatier/article/SF-Board-of-Supervisors-sanitizes-language-of-14292255.php?psid=leUVR
  • 2a: https://www.washingtonpost.com/news/to-your-health/wp/2017/10/09/knowingly-infecting-others-with-hiv-is-no-longer-a-felony-in-california-advocates-say-it-targeted-sex-workers/?noredirect=on
  • 2b: https://www.nationalreview.com/2018/07/plastic-straw-ban-santa-barbara-jail-time-punishment/
  • 3a: https://www.folsomstreetevents.org/folsom-street-fair/
  • 3b: https://cal-catholic.com/more-than-20-catholic-pages-blocked-from-facebook/
  • 4a: https://taxfoundation.org/publications/state-local-tax-burden-rankings/
  • 4b: https://cal-catholic.com/san-francisco-bans-official-travel-to-pro-life-states/

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Livros lidos em 2019


  • Aprendendo Inteligência - Pier Luigi
    • Livro de criança, não sei por que me dispus a ler. Fala como não aprendemos nada na aula, e por isso é importante ler a matéria que se teve aula no mesmo dia, pois é nesse momento que se aprender. Vou recomendar ao Gabriel quando ele tiver idade.
  • Surely You're Joking, Mr. Feynman - Richard Feynman
    • Autobiografia do físico Richard Feynman, prêmio Nobel, um dos responsáveis pela bomba atômica. O cara aparentemente era um baita gênio, meio doido, mas bastante carismático. Passou um tempo lecionando no Brasil e disse que aqui não se ensina física, o que eu concordo. Todos deveriam ter sua forma de abordar problemas: com sinceridade e autenticidade, e não tentar encaixar através de estruturas pré-concebidas.
  • Skunk Works - Ben Rich
    • História da Skunk Works, a divisão de projetos especiais da Lockheed Martin, à época da Guerra Fria. O que fez ela ser tão bem sucedida é a sua abordagem sincera e autêntica na resolução dos problemas de engenharia (foi uma boa sequência ao "Surely You're Joking, Mr. Feynman"). Deu vontade de voltar a ser engenheiro, pena que a realidade hoje e no Brasil é totalmente diferente.
  • Guia Suno de Fundos Imobiliários
    • Pura bosta. Não vale o review.
  • Confissões - Santo Agostinho
    • Muito bom. O livro começa fazendo jus ao nome, com Santo Agostinho narrando sua vida e confessando a Deus os diversos pecados que cometeu, desde o momento em que nasceu até após sua conversão, já adulto. Ao mesmo tempo, é um livro apologético e de glorificação. Ao final, parece que o livro "Confissões" termina e começa um outro de filosofia, em que Santo Agostinho analisa o significado do início do livro do Gênesis ("No princípio Deus fez o céu e a Terra"), a qual eu particularmente achei muito esclarecedora, mas não entendi a conexão com suas Confissões. Livro para ler de novo, especialmente suas partes filosóficas.
  • Almas Mortas - Nikolai Gógol
    • Chato. O Autor passa metade do tempo divagando em descrições e narrativas hiperdetalhadas, e essa é a razão de ser da obra, que tem como objetivo criar uma imagem perfeita na cabeça do leitor do provincianismo russo camponês e sua baixeza moral envernizada de bom comportamento social. O objetivo é atingido, e acho que o livro é aclamado justamente porque essa imagem "pintada" é talvez universal e atemporal -- certamente a reconheço aqui no Brasil. Mesmo assim achei pessoalmente chato.
  • O Estrangeiro - Albert Camus
  • A Nova Era e A Revolução Cultural - Olavo de Carvalho
  • As Aventuras de Tom Sawyer - Mark Twain
  • As Nuvens - Aristófanes
  • As Vespas - Aristófanes
  • Lisistrata - Aristófanes
  • O trabalho intelectual - Jean Guitton
  • O Trabalho e os Dias - Hesíodo
  • Teogonia - Hesíodo
  • Prometeu Acorrentado - Ésquilo
  • Orestéia (Agamemnon, Coéforas, Eumênides) - Ésquilo
  • ...
Encerrei por aqui essa empreitada de colecionar bullet points. Notei que estava lendo como se estivesse amealhando créditos de leitura, em parte por pura vaidade, como se ticar a lista de leitura fosse me render uma espécie de distintivo, em parte porque descobri que meu nível de leitura provavelmente não passa de Passivo Bruto Completo, segundo nível na classificação de cinco níveis do Rafael Falcon.

O primeiro problema estou tentando resolver confessando-o a mim mesmo e publicamente.

O segundo problema estou tentando resolver primeiramente pelo curso de latim do Rafael Falcon.

domingo, 7 de abril de 2019

A Sagração da Putaria

O Theatro Municipal vai passar um ballet-orquestra chamado A Sagração da Primavera. Fiquei curioso pra ver, fui no Youtube aqui e vi a apresentação de Paris em 2013. É uma bagaça bem estranha, mas sinceramente eu gostei e vi valor. A coreografia original é de Vaslav Nijinsky, e a música é de Igor Stravinsky.


A reapresentação comemorando 100 anos da premiere, em Paris (fiel ao original)
Conta a história de uma tribo pagã (Russa, ao que consta) celebrando a chegada da primavera e sacrificando uma menina bonita, que se mata de tanto dançar. A coreografia é bastante bizarra, e a música também (confusa, assimétrica, dissonante, tem que ouvir pra entender). Mas eu gostei porque fez sentido, e de certa forma guarda uma verdade que parece ser universal: uma cultura que não conhece - muito menos valoriza - a harmonia degenera em ritmo sem sentido e em morte, literal ou metaforicamente falando.
Pois bem, não fui ver a versão do Theatro Municipal, mas vi no facebook algumas imagens. Sei que é complicado julgar assim, mas as imagens mostram claramente que substituíram todo o figurino e cenário da peça por uma versão puteiro da coisa.

A chamada do Theatro Municipal. Repara a linguagem corporal das mulheres, o figurino, cores, etc
No site oficial da peça, há a seguinte informação:
A produção que reestreia no Theatro Municipal se distancia da montagem original ao propor uma reflexão atual das questões ambientais. Em todo o espetáculo, pétalas de rosa cairão. O fluxo se intensifica à medida que aSagração (sic) se desenvolve. “A beleza que se introduz com uma suave chuva de pétalas, dá lugar a uma tempestade, num delírio incessante e incontrolável. Os bailarinos passam a ter muita dificuldade para dançar e o que era bonito, vira uma tortura. Funciona como uma metáfora e uma forma de alarme ao desequilíbrio das condições ambientais”, afirma Ismael Ivo. Ao todo, são 650 mil pétalas artificiais revestidas de veludo que caem e enchem de beleza o palco do Theatro.

Então a peça, que é sobre a degeneração resultante de se desprezar os aspectos mais elevados da alma, é readaptada, com o objetivo artificial de falar de questões ambientais, e acaba só degenerando em putaria. Stravinsky e Nijinsky estavam certos.

domingo, 9 de dezembro de 2018

A Colaboração Move o Mundo

Texto postado no Wordpress, no dia 9 de Dezembro de 2018.



Bellum omnium contra omnes. Essa famosa frase de Thomas Hobbes em seu tratado De Cive, publicado no século XVII, faz parte do nosso imaginário. Significa "a guerra de todos contra todos", e é a justificativa que Hobbes dá para a existência do Estado, sem o qual a sociedade decai para seu estado natural de luta generalizada.
Pois bem, na aula de hoje, o Olavo pediu que nós façamos o seguinte exercício:

  1. Listar todos os itens do cômodo em que estamos.
  2. Descrever como cada item foi parar onde está, desde seu estado desmontado e em matéria prima.
Vamos lá, eis os itens da minha varanda, onde estou agora. Vou me ater apenas aos itens móveis, e apenas aos que estão do meu lado do balcão central, para minimizar a lista:
  1. Uma mesa
  2. Quatro cadeiras pretas
  3. Uma cadeira de escritório com regulagem de altura
  4. Um pé de manjericão
  5. Um vaso auto irrigável, sem nenhuma planta
  6. Um notebook e seu carregador
  7. Uma xícara de café de vidro sobre seu pires e ao lado de uma colher de aço inox
  8. Um fone de ouvido
  9. Duas lapiseiras
  10. Um caderno
  11. Um boné
  12. Uma fruteira de aço, com umas bolas decorativas
  13. Uma toalha de mesa
Vamos então à segunda parte do exercício, item por item:
  1. Uma mesa: essa mesa é feita com MDF, e é branca. O MDF foi feito de madeira de pinheiro, e tudo começou há quase duas décadas atrás. Uma pessoa subiu a árvore (usando equipamento próprio para escalada da árvore) para apanhar o fruto do pinheiro, chamado de cone, e a partir dele obteve a semente. Uma pessoa selecionou a semente usando uma peneira grande. As sementes foram peneiradas sobre tubos, chamados tubetes, que seguiram para um viveiro chamado casa de germinação. A casa de germinação é uma construção de metal e lona transparente, parecida com uma estufa. A casa de germinação é também equipada com irrigação automática, que irrigou os tubetes passando por cima deles. Depois de um mês, as mudas passaram para outro local no viveiro, onde foram controlados os nutrientes por meio de substratos específicos - esse processo todo foi controlado provavelmente por um engenheiro que conhecia as propriedades e técnicas necessárias. As mudas ficaram assim por aproximadamente sete meses, até alcançarem cerca de um palmo de altura, quando uma ou mais pessoas recolheram as mudas das árvores que compõe a minha mesa, e as transportaram para a fazenda de plantio. Lá foram plantadas por trabalhadores com o auxílio de um equipamento próprio para isso, que se assemelha a um tubo pontudo, dentro do qual vai a muda. Plantadas as mudas, outras pessoas aplicaram o formicida e o herbicida. As mudas demoraram aproximadamente dezessete anos para se formar em árvores prontas para colheita, que foi realizada com auxílio de um trator grande chamado colhedor, que foi operado por uma pessoa treinada, com auxílio de mais duas pessoas. O colhedor cortou as árvores e limpou os galhos de modo a deixar apenas o tronco, em tamanhos padronizados. As toras limpas e padronizadas foram carregadas em um caminhão grande e levadas pelo motorista à fábrica de painéis de madeira, onde foram descarregadas. A fábrica é bastante automatizada, com diversos engenheiros e operários que controlaram tudo que aconteceu a partir deste momento. As toras da minha mesa passaram por uma série de processos mecânicos, como descascamento, picagem, seleção, secagem e compactação. Um revestimento melanínico branco foi aplicado, que é o que dá a cor da minha mesa. Em uma marcenaria, uma pessoa negociou as chapas de MDF com a fábrica, pagou usando um banco, e as chapas da minha mesa foram carregadas em um caminhão, transportadas até a marcenaria por um outro motorista, e descarregadas por uma outra pessoa. Talvez essa mesma pessoa que negociou as chapas também negociou os parafusos da mesa com uma fábrica de parafusos, o papelão da embalagem de uma fábrica de papelão, o plástico da embalagem com uma fábrica de embalagem, o papel para manual de instruções com um distribuidor de papel, etc. Na marcenaria, alguém pensou no desenho da mesa, e criou um projeto. Seguindo esse projeto, os marceneiros cortaram os painéis, furaram e embalaram a mesa. Outra pessoa na marcenaria deve ter negociado a venda da mesa pronta com alguém da loja de móveis. Fechado o negócio, outras pessoas realizaram o carregamento, transporte, descarregamento e estocagem da minha mesa. Pessoas completamente diferentes programaram o site por meio do qual fiz a compra da mesa na internet. E ainda outras pessoas foram responsáveis por carregar a minha mesa em um caminhão, transportá-la até o antigo apartamento da minha esposa. Lá, eu montei a mesa, na forma como ela se encontra hoje. Nós mudamos algumas vezes de apartamento, e nesse processo algumas outras pessoas nos ajudaram a transportar a mesa de um local até outro, até ela se encontrar aqui.
Passaria a vida toda repetindo esse processo apenas para os 13 itens da lista acima, que corresponde a um pequeno pedaço do meu apartamento. E admito que tomei diversos atalhos na exposição acima. Por exemplo, eu não disse nada sobre os parafusos da mesa, o papelão e os plásticos da embalagem, o papel do manual. Também não disse nada sobre os equipamentos utilizados pelas pessoas, por exemplo, como foi que o operador da cortadeira teve acesso a uma cortadeira? Quem a fez?  Quem fez o equipamento de escalada em árvore, os tubetes, o irrigador automático, a casa de germinação? Quem desenhou e construiu a fábrica de painéis? Quantas pessoas foram necessárias para coordenar toda essa orquestra?
É provável que muitos milhares de pessoas colaboraram anonimamente para que essa minha mesa terminasse aqui onde está agora. Que dirá então da lista dos 13 itens? Que dirá do meu apartamento, ou de tudo que posso ver a partir da minha varanda, um pequeno pedaço de uma das mais de cinco mil cidades do Brasil?

Como pode alguém crer que essa trama praticamente infinita de colaboração pode se dar a partir de uma luta de todos contra todos, ou que é possível gerenciar tudo isso por um governo central?

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Livros lidos em 2018

O fim do ano se aproxima. Apesar de ainda haver um restinho de ano, acho que é um momento oportuno para fazer o balanço dos livros que li ao longo de 2018, tendo em vista que não devo ler mais que um ou dois até 31 de Dezembro.

Minha meta era que eu lesse trinta livros, com a única condição de que eu sentisse que, para cada livro lido, eu pudesse dizer que um Livro havia sido Lido, com os dois eles maiúsculos. Gibis ou revistas grossas estão fora, por exemplo, bem como livros que eu tenha apenas inspecionado um capítulo ou outro. Essa condicional foi inserida para que eu pudesse evitar a tentação do auto-engano, especialmente porque a motivação subjacente é de que eu possa ingressar no mundo da alta cultura, senão de maneira efetiva, ao menos de maneira honesta.

Não cheguei nem perto dos trinta, mas me consolo no fato de que nunca li tanto na minha vida. Além disso, nunca li tão bem, e nunca estive tão consciente do meu próprio analfabetismo literário. A última vez que tive essa consciência foi há 15 anos.

Sinto-me como se tivesse colocado minha humanidade dentro de uma caixa de sapatos, e esta dentro de um baú junto com outras ninharias, que por sua vez foi trancado e jamais aberto por muitos anos, tampouco descartado de uma vez, mas indo de um lugar ao outro conforme a vida nos exige que mudemos de endereço, seguindo aquilo que tem maior utilidade no momento, como um emprego ou algo assim. Quis a providência que eu me lembrasse dessa humanidade, e lá fui eu ao sótão da minha história resgatar essa caixa, já muito empoeirada, muito desgastada, mas iluminada mesmo assim.

Sim, há 15 anos atrás eu sabia da minha ignorância, e essa sabedoria havia se perdido. Hoje volto a ter essa consciência e, meu Deus, que deleite é essa sensação.

Vamos aos livros, na ordem em que os finalizei:


  1. Mortimer J. Adler – Como Ler Livros
  2. Olavo de Carvalho – O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota
  3. Georges Bernanos – Diário De Um Pároco De Aldeia
  4. Lima Barreto – Recordações Do Escrivão Isaías Caminha
  5. Orígenes Lessa – O Feijão E O Sonho
  6. Homero – Ilíada
  7. William Shakespeare – A Megera Domada
  8. Leon Tolstoi – A Morte de Ivan Ilitch
  9. A. D. Sertillanges – A Vida Intelectual
  10. Machado de Assis – Memórias Póstumas de Brás Cubas
  11. Graciliano Ramos – Vidas Secas
  12. Pedro Siqueira – Todo Mundo Tem Um Anjo Da Guarda
  13. Machado de Assis – Histórias Sem Data
  14. Marcel Novaes – O Grande Experimento
  15. Fiodor Dostoievski – Crime e Castigo
  16. Viktor Frankl – Em Busca de Sentido

Como se vê, dei ênfase em literatura de ficção (nove de dezesseis) e, em particular, na literatura brasileira (cinco de nove). É uma reorientação drástica do meu hábito anterior de menosprezar a ficção como inútil, e a ficção brasileira como uma inutilidade de baixa qualidade.

Não é à toa. Uma boa história é aquela que poderia ter acontecido, e lê-la é vivê-la. Foi lendo Crime e Castigo que eu finalmente entendi que o criminoso é levado ao crime não necessariamente por doença da mente, mas por doença da alma. Foi lendo a Ilíada que eu entendi que os grandes homens também padecem dos sentimentos mais mesquinhos. Foi lendo Lima Barreto que eu entendi como é fácil se deixar alienar, independente de seu intelecto. E assim vivi não só a minha vida, mas também a de um assassino confesso, a de um semi-deus grego, a de um jornalista na época do império…

E voltando à questão da minha própria incapacidade literária: foi só quando cheguei no Dostoievski que, digamos assim, a tal da humanidade esquecida na caixa de sapato foi de fato recuperada. Li toda a primeira parte sem entender bulhufas. Na primeira leitura, não havia captado, por exemplo, que “Raskol” significa dividido em russo, que “Razum” significa razão, e que isso traz implicações simbólicas essenciais na mensagem que está sendo transmitida. Quantos símbolos não terei ignorado nos primeiros quatorze livros da lista? Será que os Li mesmo, com ele maiúsculo? Algo me diz que terei que reler todos os primeiros quatorze livros da lista algum dia.

E vale notar: se foi a Providência que me motivou a ir ao baú esquecido, foi Olavo de Carvalho quem me deu a chave para destrancá-lo, por meio de seu Curso Online de Filosofia. Devo muito também ao Francisco Escorsim, que me ajudou a desempoeirar a caixa de sapato. Que Deus os abençoe.